Com o comentário de Gustavo Vieira na minha matéria sobre Bombas Cluster, cheguei até seu livro, produzido com o objetivo de qualificar o debate nacional a respeito da posição brasileira sobre estas e outras armas consideradas ainda mais cruéis e desumanas do que os armamentos convencionais.
Como já exposto em alguns posts deste blog, que tem um certo foco nestas questões militares, é indispensável que os brasileiros passem a conhecer melhor as Forças Armadas, sua forma de pensar, seus objetivos, suas armas e a forma com que treinam para utilizá-las. Diferente de outras instituições republicanas como o Congresso, a Presidência e os Ministérios; o Exército, a Marinha e a Aeronáutica são praticamente desconhecidos dos brasileiros, principalmente pela falta de atenção da mídia e pelo fim do papel central que os militares tinham na política do País durante a ditadura.
O Brasil nunca utilizou bombas cluster em um conflito armado, pois não participou de nenhum desde a Segunda Guerra Mundial, onde esse armamento começou a ser desenvolvido. Apesar disso, era até há pouco tempo um importante produtor e exportador de mísseis com cargas cluster.
A posição simplista, estimulada pelo mito do “país pacífico”, de que um conflito armado envolvendo o Brasil seria algo extremamente improvável, desqualifica a importância do debate sobre a detenção deste tipo de munição pelas Forças Armadas brasileiras. Infelizmente uma guerra muitas vezes não depende da vontade de um país de participar ou não dela, tampouco da tradição não-militarista da nação envolvida. É verdade que vivemos em um período de estabilidade, em um Estado democrático que desenvolve uma cultura cada vez mais pacifista, que precisa ser estimulada ao máximo. No entanto, não é preciso procurar muito para encontrar reviravoltas históricas que acabam levando a um período de instabilidade.
Quando este conflito for lançado (e será, pois estamos considerando o tempo relativo a uma nação, e não a uma geração), seja ele de pequenas ou grandes proporções, é importante que as regras sejam definidas com antecedência, e não durante o período de excessão onde os ânimos fervem e a urgência da guerra acaba provocando as ações e práticas desumanas, com as consequências que conhecemos muito bem.
As guerras começam e acabam, mas as bombas cluster não. Elas podem ficar no solo por até trinta anos após o fim do conflito, criando um campo minado oculto que pode ter consequências humanitárias devastadoras. Certamente não é este o tipo de herança que queremos deixar para os filhos dos sobreviventes dos conflitos.

